A mais pura das rodas
Quando penso sobre a ascensão da extrema direita não só lembro da falta de acolhimento da classe média emergente mas também desse esquerdismo criado do Lula 2 até o Golpe de 2016 e como isso me lembra as elites Carioca-Paulistanas que achavam serem o marco civilizatório republicano, até um gaúcho subir com tanques na Guanabara.
uando lembro das minhas primeiras memórias na internet eu nunca posso esquecer, por ser um ser de classe média flutuante (hora emergente, hora decadente), de ver sempre aquelas pequenas postagens de direita de uma indignação genérica com o sistema.
Eu marco como alguém que percebeu o avanço da extrema direita, por ter sido cooptada por ela, lá pelos meados de 2014. Quando ouviam-se ruídos que nas urnas se tornaram estrondosos, dois anos depois, para eleger o presidente dos Pedófilos Unidos Donald Trump e com sua eleição essa onda de extrema direita começou a avançar pelo mundo todo como uma enxurrada em nossos celulares.
Celulares estes que são sutis aparelhos de vigilância constante onde os micro movimentos do nosso rosto são gravados, analisados e excrescidos como dados para um maquinário analisar e tornar nosso corpo, em seus mínimos detalhes num commoditie.
Mas foi a derrota principalmente interna nas redes sociais em 2016 e então em 2018 que fez as alas socialistas e sociais-democratas do país desistirem das redes sociais aceitando que aquilo era um território marcado pelo tabu de uma derrota pírrica, sim uma tão humilhante que não se ousou mais querer lutar naquele espaço.
Hoje em 2026 vemos a mesma coisa, mas nunca se perguntaram estes grandes opinadores das bolhas de 3.000 a 10.000 seguidores em sites como este ou no Instagram: como eles chegaram antes de nós sendo que nós estávamos aqui antes?
É paradoxal a presença em redes sociais, inclusive porque hoje a indústria de visualização de conteúdo é forte e fomentada por dinheiro. Claro que sempre a direita quando fomentada por nomes como Richard Gerdau, Paulo Skaf, Pedro Parente, Maluhy Filho, Luiz Carlos Trabuco, Emmanuel Hermann a luta precisa ser aguerrida, potente e muito mais hackativista que simplesmente uma gelatina.
Porque foi assim, antes do patrocínio sistemático que eles montaram, que essa onda reacionária de ódio e rancor pelo fracasso produzido no âmago do trabalhador e do futuro trabalhador que a extrema direita se lançou.
"Ah pois eles nos censuram!", "Ah pois estamos sendo limitados nas plataformas!", "Ah pois a META está fazendo X coisa" foi nesse choro que pariu-se a extrema-direita internacional 12 anos atrás.
Sim sim queridos também a extrema direita chorou por anos, chorou por quase 10 anos aqui no Brasil desde a derrota de Aécio Neves gritando sobre censura e demais coisas até que eles com uma enxurrada de perfis, postagens e propaganda conseguiram se mostrar para as empresas de rede social como membros muito lucrativos.
Eles não se importam com sua ideologia, inclusive no nascimento delas nós LGBTs éramos protegidos e toda vez que nos protegiam forjavam para eles mesmos uma medalha de tolerância corporativa para cravar no peito.
Hoje claro, todas essas foram derretidas uma vez que a extrema direita gerou mais engajamento mas o importante a ser lembrado é que:
Tua ideologia não é importante, que importa é prender a pessoa ao aparelho de vigilância constante com aquilo que tu falar, não é pelo conteúdo da mensagem mas pelo conteúdo produzido com aquela mensagem.
Por isso nos períodos finais do Lula 2 e durante o período Dilma 1 e 2 que foi fomentada pelo governo a estratégia das Mídias Alternativas. Já atentos à necessidade de dominar este campo digital se fomentou com dinheiro estatal por meio de incentivos à criação de conteúdo.
Há no imaginário popular a distinção entre cultura e propaganda, algo que para esse texto afirmo ser o mesmo mas trago a distinção para fins de entender o processo fenomenológico da coisa.
Porque quando se fomentava essa criação de conteúdo, se mesclava a propaganda à produção cultural e o problema ali jazia em não entender que: o gosto popular era pela propaganda subjetiva e não adjetiva ou escrachada no conteúdo.
Quando começou-se a aparecer demais pelo impulsionamento mais rudimentar da época passou para o povo que essa propaganda era forçada goela abaixo e aliado também à produção acadêmica dos setores sociais-aliados a massa antes de idiotas se tornou então uma massa sant'aquinênse de ignorantes.
Fomenta-se nessa parte da população brasileira um ódio ao pobre hipotético, não igual ao das elites paulistano-carioca que tem um ódio do pobre de facto, o preto e gentil-não-quisto chicoteiam a 500 anos, mas um que se baseia em ressentimento por ver que aqueles que conquistaram algo voltarem para humilhar o fracasso dos medianos que não ascenderam de 2002 a 2010.
E por ignorar esse crescente sentimento que os processos de avanço social causam no Brasil, o ressentimento de classe que os deixados-para-trás tiveram fomentou o anti-intelectualismo que aumentou de temperatura quanto mais se via livros como os de Jessé de Souza e entrevistas de Marília Chauí que buscavam atestar que esses ressentidos mereciam ali estar.
Quando justificamos que o fracassado que não passa nem da porta de entrada de uma federal é assim porque deus o fez e aqueles que passaram dessa porta por mérito entraram: caímos nós no mesmo discurso que as elites por muito tempo tiveram contra todos.
Mantendo esse discurso producente de ressentimentos também, junto ao anti-intelectualismo criou o sentimento de falta de poder. Essa falta de poder, de estar sendo deixado para trás não foi, durante os governos Lula e Dilma, sanado, mas pelo contrário: com a constante permissibilidade do avanço neoliberal sob o país, intensificado.
Quando as alas socialistas em sua pomposidade não acolheram e por cálculo eleitoral trataram um setor da sociedade como escória, esqueciam eles que os projetos de trazer as pessoas das classes pobres levariam aqueles mesmos à classe que eles propagavam como uma escória da sociedade.
Ao não acolherem e se reconhecerem como uma elite emergente, deram às elites hora escravagistas, hora industrialistas que por séculos os oprimiram uma nova massa eleitoral para reviver o projeto de poder que por 20 anos assolou o país.
Pariu-se então, Olavo de Carvalho.
O Brasil em sua conjuntura é de complicada resolução porque quando conseguimos avançar com muita luta alguns pleitos da população: essa elite intocável no máximo retorna para os seus palacetes verticais à beira mar de Salvador, nos redutos de bairros arborizados de São Paulo ou nas cidades quistas do Rio de Janeiro e lá espera.
E esperou durante o Lula 1 e 2, inclusive se aproveitou do conciliacionismo de Lula para se enriquecer. Fingiram uma cara tolerante, aceitando as bichas, pretos, travestis e tudo mais desde que...pudessem ganhar uma graninha.
Mas quando em 2012 uma parte da elite industrialista, muy amiga de Lula pediu mais dinheiro para um boom econômico no setor automotivo, ali se preparava uma das maiores armadilhas para o projeto da república brasileira.
Com esse boom, se implodiu o setor industrial do país e criou-se uma crise econômica tardia bem no comecinho do governo Dilma que juntou a Crise de 2008 junto com a recém nascida Crise das Montadoras de 2012.
Que avassalou não só o governo Dilma aumentou mas mais ainda a agonia nessa classe média que impedida de ascender para as faculdades públicas e não sendo bem vinda nas faculdades privadas do rico viu o trabalho que lhe restou nos setores do comércio e serviço ruir.
E foi nesses setores produtivos que a elite acovardada começou a vender a precarização que os assolava como panacéia para todos os problemas, desde a autoestima até o bolso, tudo se resolveria sendo patrão de si mesmo.
Claro meu leitor a falha dessa grande massa de brasileiros não é só da ingerência da esquerda mas decorrente do nosso crescimento intelectual que como grupo político-social-econômico coletivamente termos esquecido que em todos os processos de organização para um revolução socialista sempre ao ser deixada para trás a classe média essa sempre foi e será cooptada pelas elites aristocráticas que farão delas o seu novo exército de camisas marrons.
E querendo nós sermos os "gentis-agora-quistos" buscamos criar esses clubes dos livros, criar os jornais populares, criar e criar novas rodas para não aceitarmos que a nossa derrota foi sim pírrica e que deveríamos tê-la estudado.
Se acha que aceitamos e estudamos, porque então colocamos em 2018 Fernando Haddad contra Jair Bolsonaro? Se não por um mimetismo da elite intelectual anti-popular que conseguia por meio da compra de votos fazer um picolé de chuchu parecer um manjar dos deuses?
O comodismo que toma contra das alas socialistas dá espaço para uma doença infantilizadora que Lenin definia como esquerdismos, que se resume nesta busca ridícula por requintes e detalhes em como ser mais de esquerda que os socialistas que ali estão.
Quando se quer fazer política pelo purismo ideológico, morrem os Irmãos Gracchi. Quando o esquerdismo pensou que era somente tomar Paris, caiu a comuna. Quando o esquerdismo pensou que era somente disputar as eleições pacificamente porque o povo aceitaria o axioma do socialismo ser o novo sistema, nasceu o nazismo.
Quando, por causa do esquerdismo, se ignoram as realidades materiais que constroem o imaginário popular, daremos sempre espaço para uma história de fracasso ou de quase total apagamento dos avanços da humanidade.
Ontem queimou a UFPE, porque não se propagaram as denúncias e muito menos se estruturou ao longo dos anos uma rede midiática pra que essas notícias se espalhassem em redes sociais nas mais diversas formas de comunicação.
E enquanto nós justificamos que a estratégia de um partido nanico rendeu x votos e que a de outro "não dá pra fazer", eles gritaram para Meta, Tencent e Google em cada post racista, em cada post xenofóbico, em cada ameaça de morte direta, era também dito:
"Me ne frego".
Mas para ti,
Oh tão laudável esquerdista,
A ti que é puro de mente e coração:
não haverão comunistas,
socialistas e sindicalistas
para te defender;
Porque todos eles não sabiam que poderiam algum desses ser.
Já que todas as idéias e ideologias,
de um mundo justo e igual,
ficaram nas plenárias e no seu jornal;
Mas não se preocupe,
não se ocupe destas hipotéticas preocupações:
Peça em seu celular alguns bom-boms
E no cárcere do teu estúdio,
coma chocolates, pequenino, coma e com eles pragueje!
Não contra si mas contra ele,
que conquistou o descanso e não seguiu sua ortodoxia,
que traiu uma parte do seu âmago para fazer acontecer na política,
que venceu mas não viveu a mais cristalina ideologia!
À ti, sobrará a saudação dos loros,
em paus de arara,
a palma dos cansados,
explorados durante dezesseis horas árduas
todos em cacófonos coros:
agradecendo que você reinventou a mais pura de todas rodas.
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