Quando nos deixam as bibliotecas
À memória e ao legado de Paulo Fernando de Moraes Farias (1935-2026)
Prof. Dr. Paulo Fernando de Moraes Farias é entrevistado por Benedetta Rossi, em 2012; vídeo publicado no canal da Universidade de Birmingham.
Publicado originalmente em 05 de março de 2026.
Em minha iniciática experiência de pesquisa em estudos africanos durante o Mestrado — na qual busquei penetrar, a muito custo, as ordens discursivas de matriz árabe-islâmica que imbuíam de sentidos classificatórios a tradição cronística desenvolvida em África Oriental, entre os séculos XVIII e XX —, seria inevitável que meu recenseamento bibliográfico me conduzisse a ter, diante de mim, certo instigante artigo publicado no volume de estreia do periódico Slavery & Abolition, em 1980. O nome lusófono de seu autor me despertara mais que mera curiosidade, mas seria sua leitura que determinaria a importância daquele pequeno trabalho para minha própria pesquisa.1
Tratava-se de um estudo produzido pelo Prof. Dr. Paulo Fernando de Moraes Farias, que nos deixou há um mês, em 4 de fevereiro de 2026; mais lembrado por sua longeva carreira acadêmica junto ao Centre of West African Studies da Universidade de Birmingham, do qual se aposentou em 2003, e cujas contribuições lhe renderam reconhecimentos como o convite à British Academy (2017) e publicações em estilo Festschrift.2 Observa-se, no entanto, pela ocasião de seu falecimento, o silêncio institucional dos britânicos — ao passo que enfáticas homenagens ao professor ecoaram deste lado do Atlântico. Do Brasil, terra natal que Paulo Farias se viu obrigado a deixar em 1964.
À época da instauração da Ditadura Militar brasileira, Farias era acadêmico do ainda incipiente Centro de Estudos Afro-Orientais da Universidade Federal da Bahia (UFBA), alma mater na qual graduara-se, inicialmente, em medicina, antes de encontrar na Licenciatura em História o nexo de seus interesses — fazendo valer a proximidade metodológica que a semiose analítica proporciona a disciplinas tão, supostamente, distintas.
Quando os milicos bateram às portas da universidade baiana atrás do “subversivo” pesquisador, este não encontrou asilo na Europa, mas sim em África: inicialmente desenvolvendo seu mestrado no Institute of African Studies (IAS) da Universidade de Gana, onde defendeu dissertação a respeito dos Almorávidas (séc. XI-XII). O trabalho lhe conferiria crédito suficiente para ser admitido em uma bolsa de pesquisa junto ao célebre Institut Fondamental d’Afrique Noire (Ifan),3 em Dakar, no Senegal, em 1966; até, enfim, entre 1967-1969, ser convidado a lecionar na Universidade Ahmadu Bello, no norte da Nigéria — um impressionante itinerário biográfico que acompanhou os desenvolvimentos históricos de sufocamento democrático no Brasil e da construção dos Estados nacionais pós-coloniais em África, portanto.4
Lá e cá foi um pioneiro, conquanto seu mais exaustivo diálogo tenha sido travado com interlocutores do universo africanista anglófono — sobretudo a partir de sua admissão enquanto docente em Birmingham, em 1969. Pertenceu, portanto, à geração de historiadores como John Hunwick (1936-2015) e Sean O’Fahey (1943-2019). O testemunho-síntese de seu trabalho erudito pode ser visualizado, certamente, em seu monumental Arabic Medieval Inscriptions from the Republic of Mali: Epigraphy, Chronicles and Songhay-Tuāreg History (Oxford University Press, 2003), em que se debruça sobre as evidências epigráficas legadas pelas sociedades afromuçulmanas sahelianas, em árabe ou em escrita tifinaɣ própria das sociedades imaziɣen, entre os séculos V H./XI d.C. e IX H./XV d.C.
Arabic Medieval Inscriptions from the Republic of Mali: Epigraphy, Chronicles and Songhay-Tuāreg History (2003), obra que consagrou décadas de pesquisa acerca das sociedades islamicatas de África ao sul do Saara. O livro está disponível para download aqui!
Como grande parte de sua produção bibliográfica, inexiste tradução lusófona; constituem exceções a esta condição de sua obra iniciativas pontuais, como a tradução de Fábio Baqueiro Figueiredo do artigo Comércio mudo: mito e evidência histórica (2020),5 originalmente publicado em 1974 no primeiríssimo volume do celebrado periódico History in Africa. Permitam-me o parêntese de notar a reiterada presença de Farias nas origens de tão consagradas iniciativas acadêmicas; a própria revista Afro-Ásia do CEAO-UFBA, criada em 1965, conteria, em seu segundo volume, um testemunho do período do pesquisador na Universidade de Gana — sob a forma de um artigo analítico da doutrina religiosa de Ibn Yāsīn (m. 451 H./1059 d.C.), fundador do movimento almorávida no Magrebe.6
Tornando ao artigo mencionado no primeiro parágrafo deste memorial, intitulava-se Models of the world and categorial models: the ‘enslavable barbarian’ as a mobile classificatory label. Aquele texto, mais tarde tornado capítulo do volume I da coleção Slaves and Slavery in Muslim Africa,7 foi-me grandemente valioso para a compreensão das categorias ontológicas que determinavam, por meio de operações racional-teológicas, a diferenciação de povos e etnias nas sociedades islamicatas. Farias recorre a Dumézil e Lévi-Strauss através de seus comentadores — valendo-se, principalmente, de Smith e Sperber —8 a fim de articular o pensée classificatório dos eruditos árabe-muçulmanos da pré-Modernidade.
Deste modo, Paulo Fernando de Moraes Farias tomou por objeto as categorias étnico-geográficas zanj (زَنْج), ḥabaša (حبشة, “abissínios”) e birbira (بربرة, empréstimo do mais conhecido “bárbaro” grego), de contumaz emprego na descrição de África negra e de suas sociedades na literatura árabe-persa de cunho histórico-geográfico; analisou, neste sentido, o modo como tais denominações, eivadas de estereótipos derrogatórios, deslocavam-se junto às geografias imaginárias da alteridade limiar — em que o bilad al-sūdān (بلاد السودان), o “país dos pretos” (i.e. a África Subsaariana) representavam, seja por determinação divina (como o mito camítico) ou geográfica (por derivação dos climas ptolemaicos), um outro a ser reduzido à condição escrava.
Exemplar é o debate acerca do curso do Nilo: para muitos autores de obras geográficas, o Nilo possuía ramificação tripartite: enquanto o Nilo Azul advinha, de fato, da terra dos ditos ḥabaša, um ramo se estenderia até Mogadíscio, no território da atual Somália; outro seguiria o rumo oeste, correspondendo a um “Nilo de Gana”, como se pode visualizar no croqui abaixo, presente no artigo mencionado. Irrestritamente, categorias classificatórias como zanj se viam atribuídas a populações adjacentes a este rio. Farias retomaria esta discussão em artigo de 2010,9 em que trata da “dissonância cognitiva” verificada entre os dados empíricos e a imaginação geográfica.
Esboço da geografia imaginária do curso do Nilo tripartite, feito à mão por Paulo Farias e presente em seu artigo de 1980 (p. 116). Segue, provavelmente, a cartografia de al-‘Idrīsī (séc. VII H./XII d.C.).
A importância da análise de Paulo Farias para minha dissertação de Mestrado — particularmente seu terceiro capítulo, intitulado Dialética da alteridade — foi tamanha que, quando o Prof. Dr. José Rivair Macedo aventou a possibilidade de convidá-lo para minha banca de defesa, de modo algum poderia esconder minha enorme realização. Saber que o olhar atento e experiente do professor aposentado percorreriam as páginas de meu texto me geraram grande apreensão para a data de 3 de julho de 2024. Seria a primeira e única ocasião em que pude me dirigir a Paulo Farias; e se não pude, àquele momento, expressar-lhe a capital inspiração que seus escritos e sua trajetória representavam para mim, espero — ao menos — que meu texto o tenha exprimido. Vão-se as pessoas, ficam os textos.
Quando morrem as bibliotecas, daquelas que perambulam por aí, restará delas a memória. Quando a memória esvanecer, restarão ainda seus registros mais perenes. Caberá, a quem fica, deles escrever a continuidade. Que os mais de seis décadas de carreira erudita de Paulo Fernando de Moraes Farias tenham fomentado os estudos africanos no Brasil e alhures, disso não há dúvida. Que a chama continue acesa, dependerá das historiadores e historiadores do futuro em honrar o seu legado.
Notas:
- FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. Models of the world and categorial models: the ‘enslavable barbarian’ as a mobile classificatory label. Slavery & Abolition, Vol. 1, n. 2, pp. 115-131, 1980.
- GREEN, Toby & ROSSI, Benedetta (Orgs.). Landscapes, Sources and Intellectual Projects of the West African Past – Essays in Honour of Paulo Fernando de Moraes Farias. Leiden: Brill, 2018.
- Outrora Institut Français d’Afrique Noire — quando cumpria as vezes de alimentar a intelligentsia colonial francesa a respeito de África.
- Tema explorado com mais propriedade no excelente estudo de Luiza Nascimento dos Reis, que se vale de documentação arquivística e cartas pessoais de Paulo Fernando de Moraes Farias (em especial, sua correspondência com Pierre Verger): REIS, L. N. dos. O exílio africano de Paulo Farias (África Ocidental, 1964-1969). Tempo, Niterói, Vol. 25, n. 2, pp. 431-452, mai.-ago. 2019. Disponível em: <https://www.scielo.br/j/tem/a/ZgfqwBDYfT56P3Kn ZZbDCXS/?format=html&lang=pt>.
- FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. Comércio mudo: mito e evidência histórica. Afro-Ásia, Salvador, n. 61, pp. 325-356, 2020 [1974]. Esta tradução conta com prefácio de José Rivair Macedo.
- FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. A reforma de Ibn Yasín: discussão sugerida pelo Kitáb al-Bayán. Afro-Ásia, Salvador, n. 2-3, pp. 37-58, 1966.
- WILLIS, John Ralph (Org.). Slaves and Slavery in Muslim Africa, Vol. I: Islam and the Ideology of Enslavement. Londres/Nova Iorque: Routledge, 1985.
- SMITH, Pierre & SPERBER, Dan. Mythologiques de Georges Dumézil. Annales. Économies, Sociétés, Civilisations, Ano 26, n. 3-4, pp. 559-586, 1971.
- FARIAS, Paulo Fernando de Moraes. Local Landscapes and Constructions of World Space: Medieval Inscriptions, Cognitive Dissonance, and the Course of the Niger. Afriques, Vol. 2, 2010 [edição digital]. DOI: https://doi.org/10.4000/afriques.896.
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