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Isto [ainda] é uma rede social

Superficialidade, ansiedade crônica e naïveté digital

a Trahison des images (1929), de René Magritte; sempre pertinente.

Originalmente publicado em 16 de setembro de 2025.


De algum modo — o qual é, por certo, nada mais que o passivo andar do tempo — esta newsletter completou um ano. Isto foi há uns três meses.1 Para mim, a data se perdeu; assim como perdi o Bloomsday deste ano, o do ano passado, o d’outro, enfim: uma efeméride à qual busco sempre conferir certa relevância silenciosa, à revelia da imposição da materialidade da existência sobre mim. Talvez eu não tenha esquecido da data em si: difícil, contudo, teorizar sobre as desventuras de L. Bloom em meio a vozes infantis de júbilo, ódio, desconfiança, dúvida, curiosidade, enfim, a vida real batendo em meu rosto sob a forma de uma sala de aula repleta de vidas a mim temporariamente confiadas.

Ao longo deste ano em que amarrei meu burrinho neste site, pude perceber — da parte de alguns usuários, refletindo aquela que também foi impressão inicial minha — certo deslumbramento em relação ao Substack. Um encanto sobremaneira enganoso, fruto das distinções mais óbvias entre a plataforma e outras redes sociais proprietárias, nas quais a Internet (com “I” maiúsculo) tem se concentrado de modo leviatânico. Ora, nada mais atrativo a Narciso do que o espelho daquilo de tudo o que pretende ser. As imagens de um “oásis” no qual as pessoas poderiam exercer seu “intelecto” longe dos “algoritmos” instagramados e das métricas de engajamento e likes têm sido sofregamente evocadas a fim de elevar o estatuto soberano do Substack contra o “vício em dopamina”.

Ironicamente, considerações como estas são postadas no feed público do Substack, à semelhança do falecido ex-Twitter. O usuário exilado das malfadada plataformas que porventura sentir, em vez disso, a coceira da abstinência da plataforma da Meta, por outro lado, poderá rapidamente satisfazê-la acessando o botão de reels.2 Em que pese uma eventual diferença qualitativa no que é factualmente apresentado (juízo este superestimado pelos próprios frequentadores), o padrão de “linha do tempo” infinita (que preserva da ideia original apenas o continuum de conteúdo, sem início determinável mas com a certeza do porvir de conteúdos “que possam lhe interessar”) pretende nada menos que reter a minha, a sua, a nossa atenção. Até aqui, zero surpresas.

O tecnocapitalismo funciona.3 Funciona em sua finalidade máxima — tornar todo o tempo de tela em muito mais que meras distrações: em labor propriamente dito. Captura-se, com certo engenho, os anseios depositados em nossas aparições “públicas” na Internet a fim de alimentar a máquina de propaganda, o verdadeiro business. Houve estrondoso sucesso, sem dúvidas, na instauração de um estado permanente de FOMO,4 e, sobretudo, a construção de um desejo mútuo por validação entre usuários.

Muita gente já escreveu (e continuará a fazê-lo) sobre todo este panorama. Sem tergiversar muito, fato é que criei esta newsletter na esperança de que se assemelhasse, de algum modo, à experiência da Internet 2.0; quiçá, ainda, por certa empolgação com a perspectiva de um humanisme numérique ora proposto por alguns.5 Na verdade, desejava, humildemente, publicizar uma espécie de diário de pesquisa.

Bueno, uma plataforma proprietária tão uniformizadora em seu próprio design6 tem pouco ou nada a dizer sobre a cultura de blogs dos anos 2000. Por outro lado, a lógica de rede social encrustada neste modelo, envolvida em uma espécie de pressão de pares — e, confesso, um doce e adictivo sabor das estatísticas e do numerozinho ao lado do coraçãozinho — me gerou, ao compasso do tempo, um aspecto inibidor da escrita. Na minha cabecinha (e prometo ser este o derradeiro diminutivo), eu tinha a necessidade de produzir (e não mais “fazer”, note-se), sempre, o texto perfeito. De modo geral, isto significou, nos últimos seis meses, texto nenhum.

Oh, man… This doin’ numbers. Número, estatística, descaracterização.

O que me levou a querer ser alguma espécie de ensaísta? Algo mais que meu perfeccionismo, receio. Mesmo numa plataforma cool, destinada a quem suspende o mindinho ao segurar sua xícara de chá, estou a trocar meu labor intelectual pelo desejo de uma recompensa fictícia. Para ser sincero, o Substack cumpre bem sua função enquanto newsletter e repositório de textos; ademais, atingi públicos consideravelmente maiores do que outrora pude com blogs mais tradicionais. Contudo, acaso sigamos a lógica de outras plataformas privadas “úteis”, a perspectiva futura não é boa.

Os gringos criaram o neologismo enshittification para descrever a gradativa piora de um serviço após abocanhar — para não dizer monopolizar — boa parte do mercado. Digamo-lo enbostejamento, para sermos mais diretos.

Quem estava num curso de graduação há uns dez ou onze anos talvez se recorde do Passei Direto: um site de compartilhamento de materiais de estudo entre acadêmicos, cuja interface permitia, inclusive, a separação dos materiais por universidade e por cadeira específica (!). Fenomenal. Porém, quando o bolo cresceu… O repositório se tornou fechado. Os downloads dos materiais de estudos — muitos deles, livros e artigos escaneados pelos próprios usuários — foram restritos a… Adivinhem? Membros pagantes dos “planos de assinatura exclusivos”. Obviamente, após o site ter sido inundado, gratuitamente, de milhares de materiais.

Ei, mas pelo menos o Passei Direto é gamificado, e meus uploads me garantiram o ranque de Ninja! Palavrinhas e numerozinhos em uma tela…

Outro inquietante exemplo é o Academia.edu. Inobstante ter se inspirado nas piores decisões de UI da Meta, tornando-o efetivamente uma rede social com ares de revista predatória Qualis B3 (a exemplo do constante spam de pseudocitações), o Academia está usando os materiais armazenados em seu banco de dados para treinamento de IA. Embora haja um opt-out, a configuração de fábrica da conta de usuário permite que o site se aproprie de trabalhos acadêmicos para, supostamente, gerar “reviews” e “podcasts”. Lixo, lixo completo. Miséria intelectual neoliberal pulsante.

“Aqui no Academia, pegamos sua pesquisa e transformamos em lixo automatizado!”

Que o Substack já está em seu próprio processo de enbostejamento que naturalmente sucede o encanto inicial de seus usuários, não há dúvidas. Por outro lado, há males que vêm do princípio: por exemplo, à semelhança do “ex-Twitter”, vulgo X, o Substack parece se apresentar como espaço seguro para discursos de extrema-direita. Não é mera suposição: apenas dois websites da superfície da Internet jogam conteúdo nazista como sugerido em sua página inicial — a famigerada rede do Musk, e esta na qual lhes escrevo.

Para onde fugir? Enquanto não descentralizarmos a porra toda, seremos reféns de inescrupulosas redes proprietárias.


Notas:

  1. A recência era menor (ou maior?) quando iniciei a escrita desta edição da newsletter. A necessidade de ajuste reflete bem meu atual paradigma…
  2. Soube também que, entre o cabo e o rabo desta edição, os reels do Substack foram escondidos sob a “lupa” de pesquisa, mui discretamente. Mas ainda estão ali.
  3. A propósito, detesto aquela afirmação viral de que o capitalismo “falha, falhou e falhará […]”. Ele cumpre seu objetivo, que é ser esta grande merda aí, mesmo.
  4. Fear of Missing Out, i.e. o receio de não entrar na tendência do momento.
  5. DOUEIHI, Milad. Pour un humanisme numérique. Paris: Éditions du Seuil, 2011.
  6. Vide as pobres opções de customização do “HTML” de edição.

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