A morte de uma cidade
Mais lamúrias sobre o ocaso do Geist porto-alegrense
ric J. Hobsbawm (1917-2012) na escadaria da antiga Prefeitura de Porto Alegre, ladeado por dois leões, 1992 — logo após o colapso da Grande Utopia. Não poderia supor àquele momento, imagino, que estivesse a visitar outro futuro enfermo. Crédito da foto: © Adriana Franciosi/RBS.
Publicado originalmente em 27 de março de 2025.
Não esperava, é verdade, que meu retorno a este blog demoraria três meses inteiros; contudo, forças ocultas, das quais não convém [ainda] discorrer, desviaram-me do propósito aqui colocado. A efeméride dos 253 anos de Porto Alegre me incitou, por outro lado, a escapar momentaneamente às demandas de minha nova vida docente da Educação Básica a fim de externalizar uns poucos pensamentos — senão originais, ao menos espontâneos.
Creio que os coevos leitores — dirijo-me àquelas e àqueles nascidos em algum momento da última década do século XX — partilhem de uma coletiva inquietação a respeito do que a aniversariante cidade de Porto Alegre representava até o início dos anos 2000. Uma percepção curiosa, pois necessariamente retroativa: não apenas devido a sermos, à época, ainda desprovidos dos instrumentos intelectuais que nos permitissem compreender (de verdade) as implicações do panorama progressista que tornava a Capital em verdadeira referência, mas igualmente por nossa passagem da infância à adolescência testemunhar, em tempo real, o “declínio” — uma palavra a ser utilizada com cautela — de Porto Alegre. Esta condição nos permite apreender, finalmente, tudo aquilo que ela outrora fora, por contraposição.
Carrego ainda a memória de conhecer um pouco da história de Porto Alegre durante o Ensino Fundamental — particularmente, no 3º ano. Um breve trabalho de pesquisa em notícias de jornais e revistas proposto pela professora regente, em dado momento, apresentou-me a uma cidade arborizada, dotada de um transporte público que servia de modelo às demais capitais e marcada pelo dispositivo democrático do Orçamento Participativo (OP); este último, um legado administrativo popular instituído em 1989, durante a primeira prefeitura do PT. Embora — reitero — não pudesse compreender ainda a dimensão destas informações, possuía a plena convicção de viver em um lugar cosmopolita e [portanto] relevante.
E era importante. Em seu World Systems Analysis: An Introduction, o grande sociólogo Immanuel Wallerstein (1930-2019) cita reiteradamente aquela Porto Alegre do saudoso Fórum Social Mundial (FSM) em contraposição direta ao liberal Fórum Econômico de Davos. Como parte das disputas em torno da crise do sistema-mundo capitalista contemporâneo, Wallerstein observa, em 2004, o seguinte:1
O mundo enfrenta, de maneira crescente, uma luta em múltiplas frentes entre o espírito de Davos e o espírito de Porto Alegre.
Este Geist — acaso me permitam, e entendam como quiserem — de Porto Alegre parece ter sido exorcizado. A capital das lutas se tornou a suposta “capital da inovação”, como pretendem slogans cunhados por agências de marketing gestadas nos corredores da Famecos, e a sede do Fórum Social Mundial tornou-se aquela do “Fórum da Liberdade”, do “South Summit”, dos think tanks e arautos do neoliberalismo empenhados em vender a cidade a quem mais pagar.2 Os espaços públicos são paulatinamente verticalizados, privatizados, restringidos, e Porto Alegre se torna, para aqueles que nela permanecem, uma espécie de experimento tardocapitalista em andamento. Experimento chancelado pelas urnas; tivemos por vencedor o medo da cinofagia.
Pareço pessimista, e há quem diga ser este sentimento contraproducente. Crescer, fazer-se sujeito e cidadão numa época em que a Ditadura — talvez pela recência do processo constitucional e da transição democrática — era ainda, de certo modo, uma vergonha pública, e na qual o mundo (o “meu” mundo) era fundamentalmente outro, apesar de todos os conhecidos pesares (e para além da lente nostálgica e da bolha protetora vivida na infância), engendra este profundo amargor com a condição de nossa cidade.
Encerro este breve resmungo “contraproducente” com o pequeno registro abaixo. O autor deste texto tinha então nove anos de idade, e fora levado por sua mãe para acompanhar o Fórum Social Mundial de 2005. Aquela experiência, sem dúvidas, deixaria profundas impressões críticas naquele menino ainda tão jovem, tão curioso. Particularmente, a convicção de que, não sendo toda aquela mobilização um fim em si, mas sim um meio de articulação da luta por um mundo melhor — como dizia o lema do fórum, este sim digno de repetir —, “outro mundo é possível”. E outra Porto Alegre deve ser possível: não a mesma de outrora, certamente, e muito menos a atual.
Eu (sim, eu!), aos nove anos do idade, diante de uma bandeira da Palestina,
em foto de altíssima definição. Fórum Social Mundial, Porto Alegre, 2005.
Notas:
- Consultado de uma edição em espanhol: WALLERSTEIN, Immanuel. Análisis de sistemas-mundo: una introducción. Cidade do México: Siglo XXI, 2005, p. 118.
- Série jornalística do Sul21 sobre o lobby do setor imobilário que atua na gentrificação, descaracterização urbanística e desregulamentação ambiental em Porto Alegre: <https://sul21.com.br/donos-da-cidade/>.
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