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As vidas de Eleni, soberana da Etiópia

Nota biográfica sobre uma das mais determinantes mulheres da história etíope (séculos XV-XVI)

lustração mariana de uma cópia do Livro dos Milagres de Maria. Etiópia, século XVII.

Publicado originalmente em 27 de setembro de 2024.


Desde meados de 2022, tenho a oportunidade de realizar pontuais contribuições ao acervo do projeto Biografias de Mulheres Africanas — criado há alguns anos por José Rivair Macedo (porventura meu querido orientador) e Thuila Farias Ferreira dentro de um projeto de Iniciação Científica desenvolvido na UFRGS. Trata-se de um riquíssimo trabalho de compilação de trajetórias de mulheres de África, de existência histórica empiricamente atestada ou pertencentes aos imaginários coletivos, oriundas das elites ou dos estratos subalternizados.

Dentre as personagens as quais tive o privilégio de “biografar” desde então, constam, naturalmente, aquelas ligadas ao espaço sociohistórico que tomei por objeto de minha pesquisa do Mestrado: a Costa Suaíli leste-africana, de norte a sul. Neste sentido, escrevi sobre Asha Ngumi, soberana do pequena cidade-estado insular de Nguma (atual litoral da Somália), na segunda metade do século XVII; sobre Fatima binti ‘Ali, mfalme (“sultana”, por assim dizer) da outrora gloriosa Kilwa Kisiwani, na porção sul Suaíli, já no princípio do XVIII; e acerca de Nagima, liderança dentre os namarrais de Moçambique na luta contra os portugueses, na virada dos séculos XIX-XX.

Dado meu recente Ethiopian turn em termos de problemática de pesquisa, percebi a ausência de uma importantíssima personagem da história da Etiópia no período mais recuado ao qual tenho dedicado meus estudos: os séculos XV e XVI, época dos primeiros contatos efetivos entre aquele reino cristão africano e o mundo ibérico. Trata-se de Eleni, soberana da Etiópia, acerca da qual trago uma não-tão-breve nota biográfica — elaborada, originalmente, a título de verbete para o projeto Biografias de Mulheres Africanas.

Explico: devido ao caráter sintético do projeto, fez-se necessário abreviar minha contribuição dentro do formato exigido — certamente, sem prejuízo à sua qualidade. Abaixo, por outro lado, consta a versão “completa” do texto, contemplando certos debates paralelos cujas minúcias não convinham a um verbete mais objetivo. Bueno, falemos de Eleni.


Eleni – na língua amárica, ‘Ǝlǝni (እልኒ), também romanizado como Helena – foi uma das rainhas consortes do nǝguś etíope Za’rä Yäcǝqob (1434-1468), da chamada Dinastia Salomônida. Sua influência e atuação política na corte da Etiópia excederam em muitas décadas o próprio reinado deste monarca, sendo determinantes para o decurso histórico do Estado cristão entre o final do século XV e início do XVI. 

Originária do Sultanato de Ḥadīya, tributário do Estado cristão, Eleni chegou à Etiópia possivelmente ainda criança, mediante um contrato matrimonial estabelecido por Za’rä Yäcǝqob após o apoio militar daquele sultanato nas guerras contra cAdal, subjugado em 1445.1 Seu batismo cristão sob o nome ‘Ǝlǝni, “Helena”, pode ser interpretado enquanto deliberada associação às narrativas coptas e etíopes sobre o achamento da Verdadeira Cruz de Cristo por Helena Augusta, mãe do Imperador romano Constantino (306-337); hipótese reforçada pela adoção do nome régio Qwäsṭantinos por parte de Za’rä Yäcǝqob, como forma de desfrutar do capital simbólico associado à figura do Imperador romano – muito embora tais correlações sejam mais recorrentes em períodos posteriores.2

Etiópia cristã, c. 1400-1550. Reproduzido por Matteo Salvadore, The African Prester John and the Birth of African-European Relations (2017, p. 120)

Eleni portava o título esposal de Qäñ Bä’altēḥat (ቀኝዕ : በእልቴሐት), “Rainha da Mão Direita”, denominação que carregou consigo mesmo durante o reinado de Bä’əda Maryam (1468-1478), sucessor de Za’rä Yäcǝqob – o que era considerado incomum. Tal fato levou à confusão muitos cronistas não-etíopes, como os jesuítas Manuel de Almeida e Balthazar Telles, que descrevem Eleni como esposa de Bä’əda Maryam.3 Como a Crônica real deste último assinala, contudo, Eleni preservou o título devido às suas qualidades e proficiências em todos os campos:

[…E]la agradava a Deus mediante suas boas obras e sua fé, e ao fazer a prece e a comunhão, e era admirada por todos por sua habilidade no preparo dos banquetes, sua graça nas cerimônias e seu conhecimento da Escritura e da linguagem refinada. E por causa destas suas qualidades, Bä’əda Maryam amava muito nossa rainha ‘Ǝlǝni, e a tratava como sua própria mãe.4

É possível supor que Eleni exerceu, para Bä’əda Maryam, a função materna; ao passo que sua progenitora biológica, Ṣiyon-Mogäsa, fora açoitada até a morte por ordem de  Za’rä Yäcǝqob, sob acusação de conspiração, em 1462.5

O prestígio adquirido por Eleni nos círculos internos do acampamento real (a Corte, sede do poder Salomônida, era itinerante) levaria, igualmente, a rivalidades palacianas. Durante a breve regência dupla em nome do ainda infante ‘Ǝskənder (1478-1494), Eleni é ostracizada da vida política pela rainha Romna, viúva de Bä’əda Maryam, e pelo Beḥt Wäddäd (governador) Amdä-Mika’əl, da velha guarda de Qwäsṭantinos. Amdä-Mika’əl assumiria grandes poderes de forma despótica, e um grande movimento de oposição – aparentemente, liderado por Eleni – pôs fim à sua regência e garantiu a autonomia de governo a ‘Ǝskənder; desta vez, com Eleni cumprindo o papel de matriarca simbólica da Corte.6

Deste modo, a agência feminina junto à estrutura de poder Salomônida se viu gradualmente consolidada a partir do final do século XV. Quando o nǝguś Nacod (1494-1507), irmão de ‘Ǝskənder, foi morto em campanha militar contra os muçulmanos de cAdal, seria Eleni a responsável por assumir o protagonismo da regência em nome da menoridade de Lǝbnä Dǝngǝl (1508-1540), que governaria sob o nome régio de Däwit II.

As décadas entre o final do século XV e início do XVI foram marcadas por uma crescente presença portuguesa no Mar Vermelho, e pela chegada de certos missionários e emissários lusitanos à Corte Salomônida – dentre eles, Pêro da Covilhã, enviado de D. João II a fim de estabelecer uma aliança com o chamado “Preste João”, em 1494. Impedido de partir, permaneceu junto ao círculo real e se tornaria uma espécie de conselheiro de ‘Ǝlǝni, fornecendo preciosas informações a respeito do reino ibérico. Com a chegada de mais emissários, ‘Ǝlǝni toma a iniciativa de enviar uma embaixada formal a D. Manuel I (1495-1521), com uma proposta de aliança militar entre ambos reinos cristãos – africano e europeu.7

As cartas da regente ‘Ǝlǝni, redigidas em gǝcǝz e português, não pressupunham um mero pedido de ajuda a Portugal a fim de enfrentar o inimigo em comum muçulmano – àquele momento, o Estado Mameluco egípcio; sua proposta, dotada de uma consciência global, pressupunha um Manuel I dependente do apoio etíope para aniquilar os “cafres” no Índico Ocidental e, até mesmo, na Índia. A embaixada, que partiu em 1509 e chegaria a Lisboa somente em 1513, capitaneada pelo clérigo armênio Matewos, era coroada com uma oferta de matrimônio entre a Casa Salomônida e a Dinastia de Avis.8 O contato da regente do “Preste João” causaria grande alvoroço na Europa, particularmente entre Portugal e o Papado.

Uma tradução latina da carta de Eleni a D. Manuel I, publicada pelo humanista português Damião de Góis em sua Fides, religio moresque Æthiopum svb Imperio Preciosi Ioannis (1540)

Eleni era ainda viva quando a embaixada de D. Rodrigo de Lima, em resposta a seu apelo, finalmente chegou em 1520 aos altiplanos da Etiópia para ter com Däwit II, agora reinante; de idade já avançada, a reverência à sua figura é ainda relatada por Francisco Álvares. Afasta-se da vida na Corte e passa a residir em suas propriedades na província de Gojjam, onde faleceria em 1522.9 O legado de ‘Ǝlǝni de Ḥadīya para o decurso histórico da Etiópia na Primeira Modernidade é imensurável.


Notas:

  1. TAMRAT, Taddesse. Church and State in Ethiopia, 1270-1527. Oxford: Oxford University Press, 1972.
  2. Tais são as instigantes conclusões de Margaux Herman em suas pesquisas sobre a relação entre mulheres e poder na Etiópia Salomônida. Para uma síntese, vide HERMAN, Margaux. Figures féminines chrétiennes, exaltation de la dignité de roi et participation politique des reines (Éthiopie, XVe-XVIIIe siècle). Annales d’Éthiopie, Vol. 30, n. 1, pp. 71–118, 2015. 
  3. TELLEZ, Balthazar. Historia Geral de Ethiopia a Alta, ou Preste Ioam, e do que nella obraram os padres da Companhia de Iesus; composta na mesma Ethiopia, pelo Padre Manoel d’Almeyda, natural de Vizeu, Provincial, e Visitador, que foy na India. Abreviada com nova releyçam, e metodo, pelo padre Balthezar Tellez, natural de Lisboa, Provincial da Provincia Lusitana. Coimbra: na officina de Manoel Dias, 1660.
  4. PERRUCHON, Jules. Les Chroniques de Za’ra Yâceqôb et de Ba’eda Mâryâm, Rois d'Éthiopie de 1434 a 1478. Paris: Émile Bouillon, Éditeur, 1893, p. 176.
  5. Episódio narrado no começo da Crônica de Bä’əda Maryam.
  6. Tamrat, 1972.
  7. KREBS, Verena. “Ǝleni’s Mission to Portugal, 1508-1509”. In: ____. Medieval Ethiopian Kingship, Craft, and Diplomacy with Latin Europe. Cham (Suíça): Palgrave Macmillan, 2021, pp. 143-146.
  8. SELASSIE, Sergew Hable. “The Ge’ez Letters of Queen Eleni and Libne Dingil to John, King of Portugal”. In: IV CONGRESSO INTERNAZIONALE DI STUDI ETIOPICI (ROMA, 10-15 APRILE 1972), Vol. I: Sezione storica. Roma: Accademia nazionale dei Lincei, 1974, pp. 547-566.
  9. PROUTY, C.; ROSENFELD, E. Historical Dictionary of Ethiopia and Eritrea. Metuchen (EUA): Scarecrow Press, 1994.

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