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Não sei andar de bicicleta

Sobre branquitude, expectativas, frustrações e privilégios

magem: Eis um apedido comissionado, certamente, por alguém como eu — após o aceite do fracasso.

Publicado originalmente em 3 de setembro de 2024.


Não poderia permitir principiar este mês de setembro sem o velho recurso à sempre ególatra, por demais autorreferente compulsão à escrita que marcou — e lá se vai mais de uma década! — meu desencantamento de uma atitude igualmente nociva. O papel em branco pune; já muito falei disto em outros meios. Ele escarnece da sua cara, faz-se de espelho do teu não-pensar, do discurso inseguro, da palavra premeditada ante o desejo pelo espontâneo.

A supracitada atitude corresponde, sem dúvidas, à falsa aspiração por excelência amiúde incutida, desde muito cedo, nas crianças. Sim, talvez este texto seja mais um dentre tantos acerca das expectativas em torno dos filhos “prodígios”; não há problema que o seja, e o anseio por originalidade faz parte, acredito, do problema. Intriga-me mais que o fato, no entanto, sua permanência — subsistindo a quaisquer tentativas de racionalização (entre o pathos materno e o ethos da branquitude de baixo-clero).

Pouco importa o quanto os pais testemunhem as sucessivas mediocridades do “prodígio”: logo estarão em busca do investimento seguinte. “É agora!”, certamente há de pensar o pai ao matricular seu filho no quarto ou quinto esporte consecutivo, ao fazer com que aprenda dois ou três instrumentos e estude dois idiomas — antes dos quatorze anos de idade. História de privilégios, e de privilegiados fracassos cuja única maldita herança é a ânsia por um abstrato sucesso. Hobbies? Não, isto não é permitido. A alternativa à maestria é a ruína completa.

Mas foi, justamente, dos escombros das aspirações dos progenitores que construí, junto à caneta e ao papel, uma alternativa — este ser-escritor que, conquanto principiado ainda em reluzente verniz de uma busca pelo que logo descobriria ser inatingível, foi pelo papel colocado em seu “próprio” lugar (humbled, como diriam os anglófonos). Não escrevo para adquirir notoriedade ou massagear meu próprio ego com arroubos de uma pretensa e enganosa erudição que visto, admito, como máscara — muito embora acredite nisto. Escrevo, sim, porque preciso, acima de qualquer propósito, lembrar-me de quem sou. A todo instante.

E que eu não me engane: é mister (risos) que eu me recorde, sempre, que esta escrita terapêutica (men would rather start a newsletter than go to therapy) se encerra em si mesma. Não há um grande propósito a ser cumprido.

Até aprendi a nadar, a muito custo. Dominei o inglês, mas a língua germânica ainda é meu ponto fraco. Que bom. O ponto é que não preciso de mais que isto. Como optei por informar no título deste texto, também jamais aprendi a andar de bicicleta — tentativas não faltaram. À amargura do fracasso, seguiu-se o questionamento de minha própria revolta com minha incapacidade em me equilibrar ou pedalar em linha reta. Qual sua razão de ser? Por que me sinto insuficiente. Talvez eu não precise saber andar de bicicleta. Eu não quero saber. Tampouco quisesse, eu, quem sabe, ter algum dia estudado alemão.

Há de se argumentar, com justiça, que reservo-me o direito de abrir mão da dita excelência devido à minha condição de branco. É verdade. O que se tem denominado direito à mediocridade da branquitude corresponde às garantias prévias, concedidas pelo lugar social de privilégios, ao esforço mínimo da pessoa branca para atingir seus objetivos. Cinco, dez, quinze passos à frente de pessoas negras — condenadas a precisarem ser triplamente “eficientes” a fim de ocupar uma mesma (ou equivalente) posição social em meio a um sistema comandado, silenciosamente, por um “pacto narcísico”, como celebremente definido por Cida Bento.1

Na classificação de outro importante pesquisador da branquitude no Brasil, Lourenço Cardoso, é possível pensar a esfera de uma “branquitude crítica” —2 qual, conquanto posicionada como antirracista, desfruta dos privilégios de sua condição social. Embora não seja uma contradição em si — uma vez que o conceito de branquitude se delimita não (somente) pelo fenótipo, mas justamente pelo lugar social —, este posicionamento deve servir não a fim de um mea culpa autopiedoso e expiatório, que também pode ser entendido como mecanismo de isenção do branco, mas sim como um ponto de partida para agir em sociedade a fim de combater os efeitos estruturantes do racismo antinegro e anti-indígena. As branquitudes “crítica” e “acrítica”, como define o mencionado L. Cardoso, são faces da mesma moeda; distintas, mas igualmente venenosas.

É insigne, pois, que eu tenha encontrado, justamente na escrita, um limite a aspirações que vão em sentido perigosamente oposto: um certo entitlement, um suposto “direito” natural a ocupar certa posição de destaque que me foi “negada” — sempre, única e exclusivamente, devido à minha própria incompetência (tornando tudo ainda mais irônico). Se o papel tudo aceita, é neste infindo oceano de possibilidades que reside a solução de meu grande dilema. É somente por meio do exercício criativo que hei de viver as mil-vidas-em-uma pelas quais tanto anseio.

Sem delírios brancos de excelência, tampouco a resignação de quem, tendo o mundo à disposição, não tentou o suficiente.


Notas:

  1. BENTO, Maria Aparecida. O Pacto da Branquitude. São Paulo: Companhia das Letras, 2022.
  2. CARDOSO, Lourenço. Branquitude acrítica e crítica: A supremacia racial e o branco anti-racista. Rev.latinoam.cienc.soc.nínez, Vol. 8, n. 1, pp. 607-630, 2010.

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