Os esqueletos no armário de Enrico Cerulli
Não há dileção intelectual que supere e redima a visão desumanizante do estudado enquanto "objeto" de pesquisa
ublicado originalmente em 26 de junho de 2024.
Nestes idos de junho, tive a oportunidade de participar de um evento acadêmico internacional a respeito das conexões históricas entre os Estados cristãos africanos e a Santa Sé romana, entre meados dos séculos XV a XVII. Em verdade, o seminário interno (ou atelier, palavra que muito me agrada) de um grupo de estudos ligado a tal temática e que visa, num primeiro momento, constituir um amplo corpus consultável de fontes históricas – em larga medida, notavelmente, arquivadas em locais fora de África. Para tal fim, o projeto conta com vultoso estipêndio da Agence Nationale de la Recherche (ANR), equivalente francesa ao nosso CNPq.
Visualizei, nesta oportunidade, a chance de cutucar uma ferida assaz aberta do Velho Continente (e que a recente eleição do Parlamento Europeu não me deixa mentir): particularmente, os legados ocultos do colonialismo e do fascismo no regime documental pertinente aos estudos africanos produzidos no Norte global. De modo algum se trata de um tema novo; é notório que as potências coloniais europeias construíram os campos disciplinares histórico-antropológicos do orientalismo e da africanística a partir da despossessão e espoliação da cultura material das sociedades não-brancas. Sabê-lo, contudo, não é suficiente quando a historiografia contemporânea, no anseio de vislumbrar um futuro distinto, sustenta-se ainda por sobre os ombros de Golias.
Como objeto de minha análise, tomei a biografia de um dos muitos indivíduos cujo primado foi a redução do outro colonizado à condição de objeto. Interessou-me investigar a figura do orientalista italiano Enrico Cerulli (1898-1988), a mim já descrito enquanto “decano” dos estudos sobre a Etiópia dita “medieval"¹ (I) e moderna no século XX. De fato, é demasiado raro encontrar algum estudo histórico ou filológico acerca da Igreja Ortodoxa Etíope, da literatura em línguas gəcəz e amárica ou mesmo das sociedades muçulmanas do Chifre da África que não carregue, em suas referências, uma ou outra obra desta personalidade questionável. Uma coleção da Biblioteca Apostolica Vaticana (BAV) carrega seu nome (Fondo Cerulli etiopici), além de 325 manuscritos etíopes, datados entre os séculos XV e XX,2 e de ignota procedência.
Ignota, evidentemente, caso silenciemos acerca do fato de não se tratar de mero erudito, puramente dedicado às questões intelectuais. Enrico Cerulli, desde 1919, atuou como funcionário do Ministero delle Colonie italiano; e a ascensão de Benito Mussolini, pouco tempo depois, acompanharia a ascensão de sua carreira. Associado a funções diplomáticas em Addis Ababa a partir de 1926 sob os auspícios do plenipotenciário Giuliano Cora, Cerulli veria de perto a brutal invasão da Itália fascista à Etiópia, em 1935 – e atuaria, no ano seguinte, enquanto emissário do governo italiano em Genebra, durante a vergonhosa atuação da Liga das Nações que reconheceu a legalidade do estabelecimento colonial de Mussolini. Seu esforço seria recompensado com a chefia do Gabinete de Assuntos Políticos para a África Oriental e, em 1937, com a condição de Vice-Governador Geral da Africa Orientale Italiana. Em 1940, retorna a Roma, sem jamais colocar os pés na Etiópia novamente.3
Muitas páginas já foram dedicadas às escusas relações entre certos intelectuais das primeiras décadas do século XX e os fascismos coetâneos. Martin Heidegger, juramentado a Hitler, dispensa apresentações. Haveria ainda de se falar de Mircea Eliade e sua predileção pelo fascismo romeno; Georges Dumézil, por sua vez, recebeu a devida atenção de Carlo Ginzburg4 (aliás, toda a obsessão dos anos trinta com as migrações e o tripartismo indo-europeu são significativos, assim como serão os estudos etíopes para a Itália…). Enrico Cerulli, entretanto, carne e unha que fora da estrutura colonial do regime fascista de Mussolini, recebeu um verdadeiro whitewashing de sua biografia. É o que se pode depreender do que poderíamos chamar de seus “biógrafos” – ou, ao menos, aqueles intelectuais que, quando de sua morte (1988), redigiram laudatórios obituários em homenagem às suas contribuições aos estudos etíopes, como Lanfranco Ricci e Taddesse Tamrat, nomes conhecidos do métier. O período da II Guerra Mundial, em tais escritos, não passa de mero detalhe na biografia do orientalista italiano; não sem boa dose de eufemismos e mea-culpas, como a surpreendente conclusão de Tamrat sobre não ser possível definir, ao certo, a posição de Cerulli a respeito do fascismo.5
Estudos recentes de Richard Pankhurst6 – grande etiopista, e filho da sufragista britânica Sylvia Pankhurst (1882-1960) – e, notavelmente, James de Lorenzi,7 constituem importantes esforços de responsabilização de Enrico Cerulli a respeito de suas ações no período da invasão italiana à Abissínia. Debruçando-se sobre os processos da Comissão das Nações Unidas para Crimes de Guerra (UNWCC), estabelecida em 1946, destacam-se desdobramentos inquietantes acerca da posição ocupada por Cerulli; não apenas fora, na condição de especialista das línguas e culturas da Etiópia e do Chifre, pessoalmente consultado por facínoras como Alessandro Lessona e Rodolfo Graziani (este último, o chamado “açougueiro de Fezzan”, por sua atuação na Líbia, e responsável pelo traumático massacre de Yäkatit 12, em 1937, vitimando 2.000 clérigos do mosteiro de Däbrä Libānos),8 como possuía acesso privilegiado ao gabinete do Duce em pessoa.
Naturalmente, todas estas informações nos ajudam a compreender como o acervo de manuscritos etíopes de Cerulli, atualmente conservado na Biblioteca do Vaticano, foi constituído. O mais notório episódio de pilhagem da materialidade manuscrita etíope se deu em 1868, quando a expedição punitiva dos britânicos contra o imperador Təwodros II, lideradas por Robert Napier, levou ao saque e destruição do palácio de Maqdala, e ao roubo e venda de sua biblioteca a instituições como o British Museum, a Bibliothèque Nationale de France e a Bodleian Library.9 A invasão italiana de 1935, por sua vez, representou um segundo grande movimento de despossessão de artefatos culturais – em sua grande maioria, ainda resguardados por instituições museais e de ensino europeias, inobstante os esforços etíopes em prol de sua devolução, e as decisões legais previstas no Tratado de Paris (1947), na Convenção da UNESCO de 1970 e na Convenção da UNIDROIT (1995).10
Enrico Cerulli arrogou a si a autoridade epistêmica de um legítimo construtor daquilo que o intelectual congolês Valentin-Yves Mudimbe denomina bibliothèque coloniale. Valendo-se de sua assimétrica posição de poder na hierarquia colonial, não apenas se apropria da tradição escrita africana — editando-a, rearranjando-a, publicando-a, interpretando-a, à maneira de seus contemporâneos, como Carlo Conti Rossini (outro cujo nome é sinônimo da orientalística italiana) —11 mas igualmente projeta determinados discursos sobre África os quais, em última instância, visavam sua subjugação.
Sabidamente, as ciências coloniais despiram os povos não-brancos, às margens do moderno sistema-mundo europeu, de sua própria humanidade. Da frenologia médico-etnológica à própria historiografia, tomou-se o contingente que constituía a maior parte do mundo por tábula rasa a ser descrita, escrutinizada, mensurada, testada, dissecada (literalmente), questionada, espoliada, enfim: dominada. Era esta, afinal, a função última que cumpriam os estudos sobre o colonizado: servir de ferramentas úteis à administração dos territórios ultramarinos, e de controle social de suas populações. O malho e a caneta em harmonioso uníssono por sobre as cabeças dos colonizados.
Não é à toa, por exemplo, que o século XIX veria um verdadeiro boom nas pesquisas acerca das missões da Companhia de Jesus à Etiópia (1555-1632);12 seguindo-se uma visão historicista da história-exemplo, buscava-se senão compreender os sucessos e insucessos da experiência (majoritariamente ibérica) europeia nas terras do dito “Preste João”.13 Na Itália, de igual modo – e na esteira da humilhante derrota italiana em Adwa, em 1896 –, os estudos etíopes se estruturaram, nas primeiras décadas do XX, enquanto questão de interesse nacional. A figura do intelectual colonial, nesse contexto, reafirme-se, corresponde a um projeto de poder. Por trás da figura do erudito em seu gabinete, inflama-se a futura conquista. Um breve estudo de Enrico Cerulli, datado de 1933, apresenta esta visão de maneira [pouco] sutil. Ao tratar das embaixadas etíopes a Veneza, Nápoles e Roma no Quattrocento, afirma que os decorrentes intercâmbios artísticos e culturais representaram a introdução “pela primeira vez, na Etiópia do século XV, de elementos de progresso e evolução”.14 Ao afirmá-lo, Cerulli visa tecer uma continuidade entre a Itália quatrocentista e a Itália fascista, e os supostos benefícios de sua presença contemporânea na Abissínia.
É inevitável, neste ponto, não pensar em Frantz Fanon, com o qual concluo este texto (que já superou, em muito, a extensão desejada). Em seu seminal ensaio Sobre a Violência (1961),15 redigido em seu leito de morte, diz-nos o seguinte:
O colono faz a história, e sabe que a faz. E como se refere constantemente à história de sua metrópole, indica claramente que ele é aqui o prolongamento dessa metrópole. A história que ele escreve não é, portanto, a história do país que ele saqueia, mas a história da sua nação, naquilo que ela explora, viola, esfaima.
- Frantz Fanon (1925-1961)
Notas:
- Dentro da noção eminentemente francesa de uma Moyen Âge africain, como defendido por François-Xavier Fauvelle e Marie-Laure Derat. Esse debate dá tanto pano pra manga…
- RAINERI, Osvaldo. “Cerulli etiopici”. In: D’AIUTO, F.; VIAN, P. (Orgs.). Guida ai Fondi Manoscritti, Numismatici, a Stampa della Biblioteca Vaticana, Vol. I: Dipartimento Manoscritti. Cidade do Vaticano: Biblioteca Apostolica Vaticana, 2011. p. 400–401.
- CERULLI, E.; RAINERI, O. Inventario dei manoscritti Cerulli etiopici. Cidade do Vaticano: Biblioteca Apostolica Vaticana, 2004.
- GINZBURG, Carlo. “Mitologia germânica e nazismo: Sobre um velho livro de Georges Dumézil”. In: Mitos, emblemas, sinais. São Paulo: Companhia das Letras, 2014, pp. 181-206.
- TAMRAT, Taddesse. ENRICO CERULLI (1898 - 1988): In Appreciation of His Great Ethiopian Scholarship. Journal of Ethiopian Studies, v. 23, p. 85–92, 1990.
- PANKHURST, Richard. Italian Fascist War Crimes in Ethiopia: A History of Their Discussion, from the League of Nations to the United Nations (1936-1949). Northeast African Studies, v. 6, n. 1–2, p. 83–140, 1999.
- DE LORENZI, James. The Orientalist on Trial: Enrico Cerulli and the United Nations War Crimes Commission. Northeast African Studies, v. 18, n. 1–2, p. 165–200, 2018.
- A iniciativa Project3541 constitui-se em potente acervo visual do conflito ítalo-etíope de 1935-1941, dando testemunho dos horrores praticados pelo comando colonial italiano.
- PANKHURST, R. The Napier Expedition and The Loot From Maqdala. Présence Africaine, n. 133/134, p. 233–240, 1985.
- BEYENE, S. G. A History of Cultural Heritage management in Ethiopia (1944-1974): aspects of Cultural Heritage management in Ethiopia. Saarbrücken: VDM Verlag Dr. Müller, 2010.
- WION, Anaïs; BERTRAND, Paul. Production, Preservation, and Use of Ethiopian Archives (Fourteenth–Eighteenth Centuries). Northeast African Studies, v. 11, n. 2, p. vii–xvi, 2011.
- D’ALÒS-MONER, A. M. Colonialism and Memory: The Portuguese and Jesuit Activities in Ethiopia through the Colonial-looking Glass. Studies of the Department of Languages and Cultures, n. 41, p. 73–91, 2007.
- Outro assunto que dá muito pano pra manga…
- CERULLI, Enrico. L’Etiopia del secolo XV in nuovi documenti storici. Africa Italiana, Vol. V, n. 1-2, pp. 57–112, 1933.
- FANON, Frantz. Os Condenados da Terra. Rio de Janeiro: Zahar, 2022 [1961].
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