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O pensamento escatológico no RS pós-diluviano

O estado de calamidade enfrentado evoca um imaginário coletivo de raízes bastante profundas

ublicado originalmente em 31 de maio de 2024.


A imagem diluviana está presente em alguns dos mais antigos registros literários – revelando uma circulação oral ainda mais anterior. Do épico de Gilgámesh ao mito acadiano do Atrahasîs, ambos preservados em tabuinhas cuneiformes datadas dos séculos XXIV-XVII antes da chamada Era Comum, é recorrente a narrativa que serviria de inspiração e moldura às tradições cananeias do antigo Oriente “Próximo” a serem fixadas no livro de Gênesis, no Velho Testamento. Dadas as devidas variações, o Grundmythos (ou “mito fundamental”, com diz o filósofo Hans Blumenberg) corresponde à noção da evocação divina das águas – elemento primordial da vida e da Criação, agora responsável por sua ruína – como expediente punitivo à iníqua humanidade, à exceção dos ditos “escolhidos” por Deus (ou pelos deuses, no caso das tradições mesopotâmicas). À lição de moral, no entanto, subjaz a realidade concreta das cheias dos rios Tigre e Eufrates; ou ainda, uma grande enchente pretérita de proporções catastróficas, emplastada na memória social de longue durée das sociedades mesopotâmicas e próximo-orientais através dos séculos.

Quando da emergência do Islã, no século VII da Era Comum, no coração da Península Arábica, tais tradições eram conhecidas; certamente, as narrativas judaicas e cristãs consolidaram versões que envolviam Noé e sua grande Arca a assegurar o futuro pós-diluviano. A personagem seria canonizada no Alcorão, sendo evocada ao longo de várias surata (i.e. “capítulos”). Nada disso impediria, contudo, que o califa Abássida al-Mansur fizesse erigir, em 762, à margem ocidental do Tigre, a Cidade Circular de Bagdá, projetada para ser a nova capital de um império mundial. Seria um contrassenso não construí-la ali: para além da estratégica posição próxima aos aliados persas que constituíram a base revolucionária que derrotara os Omíadas, o Tigre e o Eufrates permitiam, ao mesmo tempo, o acesso imediato à água para a irrigação e uma via direta ao Golfo Pérsico. Antes de Bagdá, a Nínive dos antigos babilônios ou a Ctesifonte sassânida haviam igualmente florescido próximo às suas margens; a humanidade sempre manteve intrínseca relação com seus leitos d’água – o Nilo, da montanhosa Etiópia ao Baixo Egito, é igualmente exemplar. Bagdá, também dita “Cidade da Paz”, não tardaria a exceder, em muito, os limites da cidade murada – em verdade, o complexo palaciano califal – e ocupar ambas margens do rio, constituindo-se em uma cosmopolita megalópole medieval. 

Naturalmente, a exposição acima possui um fio condutor que nos trará a Porto Alegre, no ano de 2024 E.C.: as águas. Pois o estado de calamidade enfrentado evoca um imaginário escatológico coletivo de raízes bastante profundas; falemos de duas facetas deste imaginário. A primeira diz respeito à percepção do flagelo enquanto punição coletiva, e de ordem essencialmente moral – uma transgressão de tamanha ordem que somente a implacável intervenção divina poderia pôr fim. Em 2020, assistiu-se a uma série de culpabilizações pela pandemia do vírus SARS-CoV-2: o carnaval – um dos alvos prediletos deste tipo de inferência –, os chineses, os imigrantes e uma série de outras coletividades. A busca pelo bode expiatório é, logicamente, a busca pelo sacrifício que há de aplacar a fúria hierofânica. A busca por uma razão transcendental às enchentes não escapa a este discurso. Discurso este ao qual o próprio campo da esquerda não esteve imune, dada a percepção reduzida do Rio Grande do Sul enquanto um monólito conservador e branco. Certamente, mesmo aos mais céticos perante uma torrente desencantada, haveria algo como uma camada de merecimento associada à catástrofe; o que não faz senão revitimizar as centenas milhares de afetadas e afetados. Culpa-se o povo gaúcho, inclusive, por residir próximo aos cursos d’água – prática tão antiga quanto a própria humanidade, como vimos –, ignorando-se, especialmente, questões de ordem socioeconômica que determinam a ocupação dos espaços (retomaremos este ponto na sequência).

A segunda faceta corresponde a uma falácia primordial: a da hecatombe que atinge, igualmente, a todos os estratos sociais. Trata-se, evidentemente, de remissão direta ao pensamento escatológico: ninguém estará a salvo do Dia do Julgamento. Historicamente, tal percepção se fortaleceria durante a Grande Peste de 1347-1353, em ambas margens do Mediterrâneo, e inspirando os conhecidos motivos artísticos das danças macabras – em que a Morte antropomorfa dança ao lado do camponês, do bispo e do rei, de braços entrelaçados. Entretanto, mesmo com as devidas proporções e limitações de conhecimento acerca da propagação da bactéria, a esmagadora maioria dos milhões de mortos empilhados em carroças foi de gente comum. 

O mito escatológico é confrontado, no Rio Grande do Sul de hoje, com a realidade material das mudanças climáticas, e a destruição de centenas de milhares de vidas e sonhos. Tal realidade é elidida, justamente, pela busca por um absurdo elemento causador – sejam eles a invocação divina ou, ainda, esdrúxulos conspiracionismos acerca de máquinas maliciosas de controle do clima por entes supranacionais, incessantemente compartilhados nas redes sociais. O negacionismo climático é perpassado pela recusa às mais evidentes premissas científicas e sociológicas, amplamente demonstradas por especialistas; as causas já são, há muito, conhecidas, e intrinsecamente ligadas à expansão do predatório capitalismo neoliberal e suas ramificações junto ao Estado atomizado. Igualmente conhecido é o racismo ambiental que determinou e determina a segregação socioespacial nos espaços urbanos brasileiros, relegando as regiões mais inóspitas à população em situação de vulnerabilidade social. Um simples cruzamento de dados demonstrará que a grande maioria dos atingidos pelas enchentes em Porto Alegre e Região Metropolitana pertence às classes desfavorecidas, e majoritariamente pretas e pardas (para seguirmos a classificação do IBGE). Argumentar-se-á, de forma igualmente falaciosa, que as águas “não veem a cor do indivíduo”; no entanto, quem gentrifica, especula, nega o acesso à moradia popular, não investe no desenvolvimento social e urbano da periferia e, por fim, prevarica face às demandas da infraestrutura essencial da cidade, como as casas de bombas do DMAE, certamente vê. Nada é coincidência.

Se há, conclusivamente, um pensamento escatológico que orienta nosso horizonte de expectativas para o futuro, este deverá ser climático; se há um fim para o qual talvez seja demasiado tarde, este é o da realidade das mudanças climáticas. A culpa, portanto, também é deveras palpável, e sempre será a hora de apontá-la: pertence a todos aqueles que, em posição de poder, ignoraram a evidente voz da ciência produzida nas universidades – particularmente, as públicas. Retomando o ponto por onde começamos, recordo-me de uma passagem do Alcorão (11:42-43) em que Noé, de sua Arca, exorta a um teimoso filho que embarque, pois “não há salvação para ninguém, hoje, do desígnio de Deus, salvo para aquele de quem Ele se apiede”. Este filho, no entanto, insiste em permanecer, acreditando estar a salvo; e perece junto com a humanidade. Um breve paralelo pode ser feito em relação ao clamor de Noé: os sinais são evidentes. Não é, contudo, pela ação divina, mas sim pela humana, que a catástrofe climática se apresenta. Os responsáveis possuem nome, sobrenome, endereço (a salvo das águas) e CNPJ, e obedecem a uma só lógica: a do desmonte neoliberal de todo instrumento do interesse público e coletivo.

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